Uma roda de muitos ritmos

Uma roda de muitos ritmos

Historicamente, a capoeira sempre foi um espaço de resistência cultural, expressão da liberdade e pertencimento para a população negra. Na Oficina Movimento, Ritmo e Inclusão, esses mesmos valores inspiram a construir novas possibilidades de inclusão, fazendo da roda um espaço onde pessoas com deficiência também possam se expressar, participar e encontrar seu lugar.

Quantas vezes chamamos de inclusão uma oportunidade que, na verdade, não foi pensada para todos? Quantas crianças deixam de participar de atividades culturais porque não encontram espaços preparados para acolher suas diferenças?

“A experiência de ser pai atípico mudou profundamente minha maneira de enxergar a inclusão. Ela me fez compreender, na prática, que inclusão não significa apenas permitir que uma pessoa esteja presente. É preciso criar condições para que ela participe, seja respeitada, tenha suas necessidades consideradas e, principalmente, seja reconhecida por suas potencialidades”, diz Valterlicio de Matos Reis, o Professor Bidú.

Professor de capoeira, bacharel em Direito e atuante na área social, Bidú encontrou na própria experiência como pai atípico uma motivação ainda maior para desenvolver um trabalho que já fazia parte de sua trajetória com a cultura e a comunidade. Foi desse encontro entre a vivência pessoal e a capoeira que nasceu a proposta de construir um espaço permanente de participação cultural para pessoas com deficiência.

Na Colônia Santa Isabel, em Betim (MG), a oficina acolhe crianças e adolescentes neuroatípicos, pessoas com mobilidade reduzida e suas famílias. Aqui, não se espera que todos executem os mesmos movimentos, acompanhem o mesmo ritmo ou respondam da mesma maneira aos estímulos. Mais do que ensinar capoeira, o trabalho consiste em encontrar caminhos para que todos possam experimentar, participar e desenvolver suas potencialidades utilizando a capoeira como ferramenta.

Através dos movimentos corporais, a coordenação motora e a consciência corporal ganham vida. Através do ritmo e da musicalidade, a percepção, a atenção e a participação florescem. Através da roda, das atividades coletivas e da convivência, a interação social, a comunicação e o sentimento de pertencimento são fortalecidos.

Nesse processo, Bidú coordena e conduz as atividades, mas também assume um papel ativo de observar as necessidades de cada participante, dialogar com as famílias e experimentar estratégias para tornar a prática da capoeira cada vez mais acessível. É um trabalho de construção contínua, no qual a experiência de cada encontro também ensina e transforma a própria metodologia.

Em agosto, a Oficina Movimento, Ritmo e Inclusão foi selecionada pelo Fundo Regenerativo PcD e Terceira Idade para receber apoio financeiro e fortalecer sua estrutura de atendimento.

“A contemplação representa o reconhecimento de que essa experiência pode se transformar em uma ação concreta de inclusão através da cultura”, destaca Bidú.

O recurso possibilitou a aquisição de um kit de circuito de agilidade e de um conjunto de tatames de EVA, equipamentos que vão ampliar as possibilidades de atividades corporais e oferecer mais segurança e estrutura aos participantes. Mais do que ampliar a estrutura física, o apoio representa a oportunidade de fortalecer, qualificar e ampliar um trabalho que já vem sendo construído na prática.

Mas os planos vão além. Um dos sonhos de Bidú é consolidar a metodologia desenvolvida na oficina, registrar as experiências e compartilhar esse conhecimento com outros professores e grupos de capoeira interessados em construir práticas mais inclusivas. A intenção é mostrar que a capoeira pode encontrar diferentes caminhos de adaptação sem perder sua identidade cultural.

Afinal, se a capoeira carrega uma história de resistência, liberdade e pertencimento, também pode nos ensinar que não existe uma única maneira de participar, aprender ou se expressar. Em uma roda de muitos ritmos, cada pessoa encontra seu jeito de fazer parte.