O que acontece quando o estudo acadêmico se une aos saberes tradicionais e à vontade de transformar o mundo? Em Betim, a resposta atende pelo nome de Quintal Eh. O que começou como uma pesquisa de mestrado da designer Daniele Ascipriano, orientada por Kátia Pêgo, transbordou as páginas da academia para se tornar um laboratório vivo. É a prova de que a solução para as grandes crises globais pode estar, literalmente, no quintal de casa.
"Não precisa ir para Marte para ter um mundo melhor. É possível fazer o novo aqui…”. Foi em busca desse mundo melhor que nasceu o Quintal Eh, um projeto que brota da diversidade de mulheres que buscam transformar o território onde vivem e de pessoas que detêm saberes ancestrais.
O calor que não esperou por 2030
Em 2016, o estudo "Vulnerabilidade a Ondas de Calor 2030", encomendado pela Prefeitura de Belo Horizonte, projetava que as periferias da região metropolitana atingiriam picos de calor extremos em 2030. No entanto, a realidade antecipou-se de forma assustadora: "Em 2019, a gente já estava batendo a projeção de calor prevista para 2030", afirma Daniele.
As temperaturas que levariam uma década para subir já assombravam as comunidades, que sofrem com a falta de calçadas e de infraestrutura para receber uma malha verde. A solução foi olhar para dentro: onde poderiam estar as áreas verdes? A resposta estava nos quintais. O quintal tornou-se o respiro — físico e simbólico — para quem faz parte do projeto.
Curiosamente, foi apenas com a pandemia da Covid-19 que Daniele percebeu o potencial de sua própria casa. Um refúgio verde que seus pais, vindos da roça, nunca aceitaram cimentar.
"O Quintal Eh nasce na diversidade. Somos mulheres acadêmicas, trans, cis e designers conversando com quem detém o saber tradicional. É o encontro do design sistêmico com o futuro ancestral de Ailton Krenak." — Daniele Ascipriano, idealizadora.
Vozes do Protagonismo
O projeto sustenta-se em três pilares: autocuidado, segurança alimentar e formação cidadã. Nos encontros, o aprendizado é horizontal: "O quintal é um lugar de autocuidado, onde a avó planta com o neto e as mulheres trocam conhecimentos pelo afeto".
Ali, sentados em roda, pessoas de diferentes religiões, gêneros e pensamentos políticos se unem pela terra e pela urgência de adaptar as cidades para um futuro habitável. A horta é compreendida não apenas como fonte de alimento, mas como uma poderosa tecnologia social.
O papel da ANC: destravando sonhos
Muitas vezes, grandes iniciativas morrem na burocracia. No caso do Quintal Eh, o apoio do fundo desburocratizado da Associação Nossa Cidade foi o divisor de águas.
"Com apenas 3 mil reais de um fundo desburocratizado, a gente deu o start. Muitas vezes achamos que é preciso de muito dinheiro, mas o primeiro passo é sentar em roda e jogar junto", recorda Daniele.
O recurso permitiu a criação dos "Cafés Anticoloniais": rodas de conversa onde o solo é cultivado enquanto se discute filosofia, economia solidária e sobrevivência. O espaço fervilha com produções de hortas de subsistência, ervas medicinais, biojoias e artesanato em fuxico, além de um brechó colaborativo que já promoveu a circulação de mais de 2.000 peças de roupa.
Atualmente, a gestão é conduzida por mulheres que transformam o território: Daniele Ascipriano, Alexsandra Rocha dos Santos (organizadora), Maria Aparecida Silva (artesã), Sônia Oliveira (Brecholeira), Carolina Almeida (parceira), Izul Ipes (parceira), Daniela Marciel (designer/facilitadora). Juntas, elas provam que 120 metros quadrados são suficientes para germinar renda, saúde e, acima de tudo, dignidade.
Do Quintal para o Mundo
O próximo passo é ganhar escala. O projeto está em processo de formalização como Instituto, buscando parcerias para levar essa tecnologia social a creches, escolas e comunidades de imigrantes.
O Quintal Eh nos ensina que não precisamos de tecnologias de outro planeta para salvar o nosso. Às vezes, basta um café coado, um punhado de sementes e o desejo de se reconectar com a terra em que se pisa.
Acompanhe o projeto:
[Link para o Instagram do Quintal Eh]