Reencontro de Irmãs Haitianas

Reencontro de Irmãs Haitianas
"Eu não pensei nas contas. Eu só pensei em comprar a passagem."  

Rose Andree Pierre conta que, por um momento, considerou pedir as contas do trabalho para usar o dinheiro da rescisão na passagem da irmã. Foi o patrão quem a fez parar: e depois? As contas da casa, o aluguel, o filho? Rose voltou a pensar. Não era uma boa opção. Faria de outro jeito. Ela ainda não sabia qual.

Quem lê essas linhas precisa saber de onde vem essa frase. Rose é a irmã mais velha de uma família haitiana. Perdeu o pai aos quatorze anos, com irmãos ainda menores em casa. Anos depois, perdeu a mãe, em 2020. É o tipo de pessoa que aprende cedo o que significa responsabilidade: ainda menina, passou a ajudar a mãe a criar os irmãos. Hoje, mora em Belo Horizonte, é mãe do Rodrigo, que nasceu em 2021 e "vai fazer cinco anos". E é ela quem, na família, atravessou o oceano primeiro para segurar as pontas de todos: uma irmã ela já conseguiu trazer, está no Rio Grande do Sul desde 2022. Faltava a mais nova, Naica.

O caminho de Rose até o Brasil começou em 2016, quando ainda morava no Haiti e ouviu de alguém que aqui havia oportunidade e que, se ela quisesse, valia a pena tentar. Quem a ajudou a procurar as informações foi o Frantzdy, que morava perto da embaixada e acabou virando seu marido. Ele também veio em julho de 2018. O Rodrigo, hoje com 5 anos, nasceu depois, já em solo brasileiro. E a Valentina, de 13 anos, foi adotada em 2023.

O Haiti de onde Rose saiu vive uma crise que já deixou de ser manchete e virou rotina: colapso econômico, violência e metade da população enfrentando insegurança alimentar aguda. Para quem está no Haiti, sair não é um desejo: é uma questão de sobrevivência. Nos últimos doze meses, Naica teve que se mudar de casa cinco vezes por conta de tiroteios e brigas entre gangues que dominam Porto Príncipe.

Trazer um familiar do Haiti para o Brasil é um labirinto de custos e incertezas. Rose sabe de cor: o visto é o obstáculo mais difícil. Depois vem a espera, a angústia e o medo de que o visto seja negado. No caso de Naica, demorou quase quatro anos. Daí, em setembro desse ano, chegou um email para a Rose pedindo a primeira página do passaporte de sua irmã; na quarta-feira, o envio; na sexta, a resposta.

O visto eletrônico tinha sido aprovado!!!

Alegria junto a um prazo desesperador: o visto vale só até dezembro. Noventa dias, mais ou menos, para conseguir o que Rose não tinha: algo em torno de onze mil reais para a passagem.

Onze mil reais pode parecer absurdo para uma passagem aérea — e é. Mas não existe voo comercial direto entre o Haiti e o Brasil. A rota teria de passar pelos Estados Unidos, pela República Dominicana ou pelo Panamá, e cada uma dessas paradas exige uma maratona adicional: obter um visto de trânsito, com burocracia e grandes chances de ser negado — um risco que o visto de Naica, vencendo em dezembro, não tinha como comportar. Restava a alternativa do voo fretado, contratado de forma privada. É assim que a reunificação de uma família acaba custando cinco dígitos.

Seguindo a sugestão de uma amiga, Rose criou uma campanha de financiamento coletivo e divulgou para amigos e grupos de whatsapp, conseguindo setecentos e cinquenta reais na vaquinha. Foi somente quando lembrou de enviar para o Fundo de Pessoas Migrantes da Associação Nossa Cidade, que a coisa engrenou.

O que aconteceu depois ela mesma admite que não esperava.

"Quando eu mandei a vaquinha para vocês, sinceramente, eu não esperava essa ajuda."
Como é um valor acima do que costumamos apoiar via fundo regenerativo, resolvemos fazer uma captação de recursos adicional na nossa comunidade e rede de contatos. A Rose atuou em 2025 como bolsista na pesquisa Ouvir para Bem Receber, realizada em parceria entre Nossa Cidade e nosso parceiro projeto LER e sempre foi muito querida por todos. A Nossa Cidade ofereceu de "casar" um real para cada real captado e três reais para doações recorrentes ao fundo de pessoas migrantes com compromisso de contribuição por ao menos três meses. As pessoas do Projeto LER mobilizaram doadores de sua comunidade.

Com dois dias de campanha, mobilizamos mais de trinta pessoas e alcançamos o valor necessário para a passagem.

Rose ficou muito tocada com a generosidade de gente que ela nem conhecia, gente que "não tinha nada a ver com a minha história" e que doou assim mesmo. Quando recebeu a notícia de que conseguimos levantar o dinheiro, Rose estava na sala. Levantou, foi até o quarto e chorou. Depois demorou a responder, porque não sabia como agradecer a pessoas que nem conheciam sua irmã.


Temos muito a agradecer e celebrar junto a cada um que participou desse projeto: a passagem de Naica será comprada, o visto não vai vencer, e ainda esse ano a Naica desembarca no Brasil para um abraço que já aguarda a 10 anos! 🧡

Mas a história de Rose não termina em um reencontro mas sim começa nele.

Naica chega com um sonho guardado: estudar engenharia civil. A primeira tarefa será o português; depois, a faculdade. E Rose, que entrevistou diversos migrantes haitianos na pesquisa Ouvir para Bem Receber e ouviu o drama de vários conterrâneos em relação a reunificação familiar, agora sonha maior: uma associação que ajude as famílias haitianas a se reencontrarem
"especialmente as mães que deixaram filhos para trás. Eu sou mãe agora. Eu não consigo me ver longe do meu filho."

O reencontro de Rose e Naica já tem passagem em vias de comprar. Mas a pesquisa ouviu dezenas de haitianos com o mesmo pedido que Rose ouviu e não pôde responder na época. Este reencontro é a prova de que uma solução existe — e ela tem sido construída por gente comum, doando o que pode.


Se esta história tocou você, há duas formas de responder. Se você doou ou compartilhou, o reencontro que vem aí também é seu: obrigado. E para que a próxima mãe não precise ouvir um "não sei" — ou para que a próxima Rose não precise escolher entre o aluguel e a passagem — apoie o Fundo Pessoas Migrantes, da Associação Nossa Cidade, que apoia reunificações familiares como esta entre outros projetos de pessoas migrantes. Uma doação recorrente transforma um reencontro em muitos.

Sonho que se sonha junto é realidade. Rose e Naica já começaram a provar isso. Falta o seu pedaço do sonho.