Muito além da avenida: a Unidos dos Guaranys e o cuidado na Pedreira

Muito além da avenida: a Unidos dos Guaranys e o cuidado na Pedreira

Na sede da Unidos dos Guaranys, na Pedreira Prado Lopes, nem todo movimento é preparação para o carnaval. Quando pensamos em uma escola de samba, pensamos em bateria, fantasia e festa. Mas aqui, também pode significar comida na mesa, futebol, balé, convivência dos idosos e, em breve, pilates. E o que pilates tem a ver com uma escola de samba?

Para responder a isso, a gente precisa voltar no tempo e contar um pouco da história da Associação Recreativa Escola de Samba Unidos dos Guaranys.


Há 62 anos, nascia, a partir do antigo bloco carnavalesco Índios Guaranis, a A.R.E.S. Unidos dos Guaranys, na Pedreira Prado Lopes, região Noroeste de Belo Horizonte. Uma das mais antigas e tradicionais da cidade, a escola foi quatro vezes campeã do Grupo Especial e também campeã do Grupo de Acesso em 2026. Profundamente ligada ao território, a escola também ajudou a formar sambistas e compositores que hoje atuam em várias agremiações mineiras.


Há seis décadas ela faz parte do território e da história da Pedreira Prado Lopes, mas foi apenas recentemente que uma chave virou. Inspirado pelas escolas de samba do Rio de Janeiro, Gleison, atual presidente da associação, trouxe a ideia de fortalecer a atuação social. Aos poucos, a Unidos dos Guaranys foi se tornando também referência e liderança comunitária, apoiando e fortalecendo a comunidade da qual sempre fez parte.

Até um ano atrás, a escola não tinha uma sede física, apenas alugava espaços na época de preparação para o carnaval. Mas a crescente demanda social e a vontade de fazer mais pela Pedreira fizeram com que eles tomassem uma decisão de risco: alugar um espaço! E o que muda quando uma organização comunitária finalmente tem um lugar para chamar de seu?

Para a Unidos dos Guaranys, esse foi um divisor de águas, que potencializou a atuação social que já vinha acontecendo. Hoje, os eventos realizados pagam os custos de manutenção e o espaço consegue, além de viabilizar as iniciativas próprias, abrigar coletivos e iniciativas da região que não possuem espaço físico.

Imagine você: cerca de 60 famílias recebendo alimentos frescos e saudáveis para a semana. Crianças e adolescentes aprendendo futebol, balé e percussão. Idosos protagonizando um samba e curtindo um espaço de lazer focado neles. São projetos sociais para a comunidade que nascem das próprias demandas e potências da Pedreira.

É nesse ecossistema que nasce o projeto “Movimento e Saúde na Pedreira: Pilates Comunitário para a Terceira Idade”. Ele vem do desejo de ampliar as atividades para idosos e de tornar acessível uma prática que, pelo custo, ainda está distante da realidade de muita gente da comunidade. A Unidos já tinha a ideia, já tinha uma pessoa parceira para conduzir as aulas — fique você sabendo: a própria musa da bateria! — porém faltava algo muito importante para conseguir colocar tudo em prática: recursos para adquirir os materiais.

É justamente aí que entra o apoio do Fundo Regenerativo Grande BH. Com o recurso aprovado pela curadoria, a Unidos vai poder adquirir os primeiros materiais e, finalmente, tirar essa ideia do papel.

Mas o pilates é só um dos planos dessa galera que quer “usar a energia do Carnaval como uma mola propulsora para promover transformações sociais, culturais e a valorização da população negra e periférica”. No meio disso tudo, ainda tem sonhos potentes como assistência jurídica e psicológica, aulas de capoeira e dança, formação digital e até uma marmitaria social.

A Associação Recreativa Escola de Samba Unidos dos Guaranys é um projeto da Pedreira para a Pedreira. E talvez a pergunta não seja o que pilates tem a ver com samba, mas sim como um território pode conectar suas potências e superar os desafios locais a partir de uma articulação coletiva. A Guaranys está mostrando que a mesma força que coloca uma escola na avenida pode continuar circulando pela Pedreira o ano inteiro.